domingo, 23 de agosto de 2009

Meu nome é Bruna


Escolhida para ser Bruna Surfistinha no cinema, Deborah Secco diz que ambas foram rejeitadas na infância, mas tinham força para "ser alguém" e "criar a própria história"

A partir de setembro, a atriz Deborah Secco, 29, passará oito semanas na pele da ex-prostituta Bruna Surfistinha para filmar o longa "O Doce Veneno do Escorpião". O filme, da produtora TvZero, é inspirado no livro homônimo de Bruna, que conta as desventuras sexuais da adolescente de classe média alta que foge de casa e ganha a vida como garota de programa. "Mas é só inspirado: 60% das cenas com clientes, por exemplo, tirei de entrevistas que fiz com a própria Bruna", diz o diretor Marcus Baldini. Deborah falou à coluna.

Por que aceitou o papel?
Eu queria que, quando fizesse um filme com uma grande distribuição, uma grande visibilidade -diferente dos que já fiz, que foram totalmente globais, como "Casseta & Planeta", "Xuxa" e tal-, fosse com uma oportunidade de interpretação. Que eu pudesse doar minha vida a ele, ao personagem, à criação. A imagem que eu tinha do filme, de fora, antes de conhecê-los [os produtores], era a de que tentavam copiar a Bruna Surfistinha. Quando eu conversei com o Marcus [Baldini, diretor do filme], percebi que a visão dele era parecida com a minha. Era a de fazer a Bruna do filme, e não uma réplica. Esse com certeza é um personagem com diversas curvas que vai ser um grande desafio para mim.

É a sua estreia no cinema?
Acho que sim. Eu já fiz filmes como "A Cartomante", que não teve uma grande distribuição, e esses filmes muito globais. Queria trabalhar com uma galera que ama o cinema. Quero aprender com eles. Eu aqui sou estreante.

Já leu o livro da Bruna?
Não li e não quero ler. Prefiro ler o roteiro e tê-lo como ponto de criação. Não quero conhecê-la [a Bruna], senão a gente entra na imitação. Ela e o livro vão me trazer uma Bruna diferente daquela que vou ser [no cinema]. Se um dia tiver de conhecê-la, que seja depois do filme.

O que você tem em comum com a personagem?
A minha história de vida é muito parecida. Eu era a menina feia da família, a minha irmã era muito mais bonita. Fui rejeitada pelos meninos do colégio, era aquela que sentava na última carteira e que ninguém queria. Demorei para dar o meu primeiro beijo. Teve toda essa história de rejeição que eu acho que a nossa Bruna, a Bruna personagem, tem muito. E uma força que eu também desconhecia, que eu tinha e que ela tem. Ou eu não teria chegado aonde cheguei, não teria conseguido, aos oito anos, sair escondida de casa e procurar produtor de elenco para trabalhar. Não teria saído do menos dez e me achar 20. Ela teve uma rejeição igual e uma vontade de ser aceita, de ser alguém, de criar a própria história.

E como foi essa história aos oito anos de idade?
Eu morava em Jacarepaguá [no Rio] e perto de casa tinha uma agência de publicidade. Andei sozinha até lá e falei que queria ser atriz. Por sorte do destino, enquanto estava lá, uma menina, que ia fazer comercial no dia seguinte, ligou dizendo que não podia, que estava com febre. Liguei pra minha mãe: "Mãe, eu tô aqui e tenho um comercial para fazer amanhã. Eu já falei que posso". Minha mãe tinha perdido uma filha de cinco anos e sempre foi da teoria: "Viva o máximo. Se você quer isso, a gente vai. Se você morrer depois de amanhã, não vou ficar com a culpa de que não te deixei ser feliz".

Por que se achava feia?
Eu era a menina da perna fina, cheia de espinha. Meus apelidos eram Pernalonga, Olívia Palito, Chokito. Era aquela que não tinha peito, braço fino. Eu vejo as minhas fotos e falo: "Era "feia que doía'".

E hoje, se acha bonita?
Esta coisa de estar na TV te torna mais incrível do que você é. Se eu fosse uma não famosa, uma advogada, passaria numa boate normalmente, como a minha irmã passa. Não tenho bundão, peitão, não sou a Viviane Araújo, essas mulheres gostosonas.

Mas posou duas vezes para a "Playboy".
Fiz alguns papeis sensuais que me deram essa credibilidade.

Na novela "A Favorita", você interpretou a Maria do Céu, que vai para um bordel. A Betina, de "Paraíso Tropical", era prostituta. E agora você vai ser a Bruna. Não tem receio de ficar vinculada a esse tipo de personagem?
Tenho 13 novelas. Fiz três mulheres sensuais, fiz a mocinha. A Betina foi uma participação de três capítulos, não deu pra criar um personagem. E a Maria do Céu não chegou a se prostituir.

O livro da Bruna relata excentricidades sexuais, como o "golden shower" [urinar sobre o parceiro]. Como filmar esse tipo de cena?
Acho que, se a gente não fizer um filme pornô, que é quando você reproduz efetivamente o sexo... dependendo da iluminação, da forma que vai filmar... o ator não tem que ter essas limitações. Mas jamais faria um filme pornô.

Bruna encontrou na prostituição uma maneira de sair da vida que tinha. Passou algo parecido pela sua cabeça na adolescência?
Nunca. Até porque, na minha casa, eles aceitavam todos os meus sonhos. Se eu tivesse de fugir para ser atriz, fugiria com certeza. Mas voltaria. Minha mãe sabia da loucura que criei. Com seis anos, eu ficava pedindo dinheiro, fingindo que era mendiga, chorando melhor do que os meninos de rua. Fingi um mês que eu tinha perdido a memória para a minha família toda. Eu testava meu poder de convencimento. Minha mãe via que, se eu não fosse isso, ia ser esquizofrênica.

Pedia dinheiro na rua?
A gente morava em um condomínio e no caminho para a natação tinha um ponto onde ficavam os meninos de rua. Eu ia lá, pegava roupas emprestadas, passava carvão na cara. E chorava muito fácil. Quando eu chegava, era uma alegria. Eles diziam: "Pô, a menina vai conseguir dinheiro pra gente". Passava alguém e dizia pra minha mãe: "Sua filha tá lá no sinal pedindo dinheiro". Ela dizia: "Ah, eu sei. Deixa, daqui a pouco ela volta".

A Bruna fez fama por causa de um blog. Hoje, muitas celebridades utilizam a internet para falar da vida pessoal. E você?
Eu tento esconder a minha vida. Procuro fazer com que coisas importantes da minha vida sejam só minhas.

Quais tipos de coisas?
Meu casamento, por exemplo.

Saíram várias reportagens dizendo que você queria engravidar antes de fazer a próxima novela do Gilberto Braga, em 2010.
Não sei de onde veio isso. Nem se eu quisesse, não dá tempo. E ainda tem a possibilidade de ter [a minissérie] "Decamerão" no ano que vem.

E como é o casamento à distância [o marido da atriz, Roger Flores, joga futebol no Qatar]?
Ótimo. A gente está superfeliz. É só isso que eu falo. Podem falar o que quiserem. Aprendi com o tempo que me faz mal ler depois e saber que eu falei aquilo por falta de força.

O diretor do filme diz que "arrependimento" é uma palavra que não está no universo da personagem da Bruna. E no seu?
Tem uma frase no filme que traduz exatamente o meu não arrependimento: "Só sendo o que eu fui, hoje eu posso ser quem eu sou".

Fonte: Folha de SP

1 Comentário:

Mariana Ximenes disse...

Ah eu li isso num blog de uma fã portuguesa!

A Déborah com toda a certeza do mundo vai dar um show de talento!!!

Bruna que venha!!!

Abraço!!

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